• Colunas

Compartilhe

Quarta, 23 Dezembro 2015

Dicas do Fanta: Travessias em trechos com água

Postado em Colunas

Guilherme Nüske, mecânico amador conhecido como Fanta, aborda um dos temas mais importantes do off road

Dicas do Fanta: Travessias em trechos com água

Um dos obstáculos mais comuns que o praticante de offroad enfrenta é a água. Seja em travessias de cursos d’água ou poças, seja pelos efeitos de sua presença nos sistemas do veículo, a água merece sempre muita atenção. Os motores de combustão interna sejam ciclo diesel ou ciclo Otto, 2 ou 4 tempos, todos funcionam admitindo ar atmosférico e misturando-o ao combustível para então, através da compressão e ignição dessa mistura, fazer movimentar os pistões, bielas, virabrequim, gerando força motriz para o veículo.

Um dos problemas mais sérios que a água pode causar num motor chamase calço hidráulico. Ele ocorre quando o motor por alguma razão admite água junto com o ar atmosférico. Por ser incompressível, a água, ao ser admitida e sugada para o interior dos cilindros, provoca a parada abrupta e conseqüente quebra do conjunto pistão/biela, muitas vezes levando à inutilização, inclusive, do bloco do motor. Nem precisamos comentar sobre o quão caro e difícil será o reparo. 

Além do problema gravíssimo do calço hidráulico, a água pode penetrar em outros sistemas do veículo sempre trazendo problemas, a saber:

a) A entrada de água na transmissão, caixa de transferência ou nos diferenciais gera problemas. Ao ser submetida ao movimento das engrenagens a água emulsiona o óleo, prejudicando a lubrificação, trazendo corrosão e riscos ao conjunto, exigindo sua desmontagem e limpeza; 

b) A água prejudica fortemente a operação dos sistemas elétricos e eletrônicos do veículo, sobretudo quando estamos pensando em água salobra ou salina; 

c) A água estraga as forrações fono-absorventes do veículo, em especial as que ficam debaixo de carpetes, bancos e painel; 

d) A água pode prejudicar os freios, sobretudo os sistemas a tambor;

e) A entrada de água no sistema de escapamento , embora não seja comum com o motor funcionando, também traz problemas nos abafadores, sondas lambda, entre outros.

Diante de tantos problemas possíveis é imperioso que a condução de qualquer veículo em contato com a água, particularmente em situações offroad, seja feita com critério e técnica. Temos, então algumas recomendações, técnicas e cuidados que listamos a seguir:

1 – Observe sempre como se configura o sistema de filtro de ar e por onde o ar atmosférico é admitido no seu veículo. Em veículos sem Snorkel, usualmente essa tomada de ar é feira na altura dos faróis ou dentro da caixa de rodas, sob o para lamas. Conhecer esse local é estratégico para garantir que em travessias a água se mantenha num nível seguro;

2 – Veículos que praticam offroad e estão submetidos a estas condições severas de utilização devem ter os respiros de caixa de câmbio e diferenciais elevados para a altura do para brisa ou, ainda melhor, na altura da capota. Tomando esse cuidado você evita grande parte dos casos de entrada de água na transmissão;

3 – Nos veículos com mecânica diesel mais antiga, sem componentes eletrônicos, a tolerância à presença de água no compartimento do motor é maior. Mesmo assim, alternador, bateria e circuitos elétricos vão sofrer se estiverem inundados. 

4 – Nos veículos com mecânica diesel modernos em que há componentes eletrônicos, sensores e fiação o cuidado deve ser redobrado. Os componentes são em geral bem protegidos mas se expostos à água podem levar a panes e ao mal funcionamento do motor, estragando a diversão. Devido à dificuldade de manutenção desses sistemas complexos e do custo de reparo, todo cuidado é pouco;

5 – Os veículos ciclo Otto (gasolina, etanol e GNV) são especialmente problemáticos com a presença da água. Como esses motores dependem do sistema de ignição e faísca para o funcionamento, tais componentes são absolutamente intolerantes com a presença de umidade ou água em cabos de velas, bobinas, distribuidores. Mesmo nos carros mais modernos, diversos sensores podem ser atingidos e com isso é comum que o motor pare de funcionar, às vezes em situações complicadas;

6 - A boa técnica recomenda que a travessia de cursos d’água cuja profundidade não possa ser avaliada por simples observação só ocorra após a travessia cuidadosa à pé.  Assim determina-se se o veículo tem ou não capacidade de lidar com o obstáculo.  Poças de água barrenta ou sem nenhuma visibilidade podem esconder buracos ou terrenos movediços portanto a travessia à pé deve ser feita com máxima cautela; 

7 – Uma vez decidida a travessia do curso d’água ou da poça, o veículo deve ser colocado de forma a atravessa da forma mais direta e curta possível. A velocidade de travessia é fator crítico: se muito lenta, a água penetra no cofre do motor de forma mais incisiva; se muito rápida, o veículo “fura” a água, podendo fazê-la subir mais alto do que seria desejável.  O ideal é manter uma marcha constante, fazendo uma onda controlada na frente do veículo, empurrando a água;

8 – Recomenda-se o uso de marcha adequada à velocidade, sem o uso de embreagem, controlando-se a velocidade apenas pelo acelerador. Não é necessário elevar demasiadamente o giro do motor, que pode tornar mais fácil a sucção de água e vai trazer problemas com as partes e componentes que giram junto com o motor (correias, alternadores, ventiladores mecânicos, etc);

9 – Um dos recursos úteis em situações de travessia é o uso de lonas que cobrem a grade e parte frontal do veículo. Evita-se que a água passe pelo radiador e ventiladores, bem como dificulta a entrada de água no cofre do motor. Esse artifício deve ser utilizado com cuidado para não danificar a grade devido ao arrasto da água. Outro fator importante: coloca-se a lona antes da travessia, retira-se a lona imediatamente após a travessia, uma vez que sua presença impede a troca de calor pelo radiador; 

10 – Em veículos que possuem ventilador mecânico acionado por correias, comum nos jipes mais antigos, é interessante afrouxar ou mesmo retirar a correia, evitando não só que a água seja espalhada mas sobretudo que as pás se quebrem ou entortem. Veículos com hélice dotada de cubo hidrodinâmico em geral suportam melhor a travessia, já que a conexão viscosa consegue ”derrapar” um pouco. Por último, os veículos com sistema de ventoinhas elétricas devem ser protegidos da água. Se estiver usando o ar condicionado, convém desligá-lo para que a ventoinha Tb esteja parada.     

11 - A situação em que o veículo chega a boiar deve ser evitada sempre, por razões óbvias de segurança. Perde-se o controle do mesmo, tornando inútil a tentativa da travessia. A solução de tentar abrir as portas e fazer a água entrar pode ser utilizada, mas os prejuízos são garantidos. Existem veículos preparados para terem a cabine inundada, mas no mais das vezes isso não é a realidade. Ao encher de água o veículo afunda e pode retomar a tração, mas ao mesmo tempo estará muito pesado e a saída do curso d’água deve ser feita aos poucos, deixando a água sair;

12 - Travessia de trechos com correnteza é outra situação perigosa e imprevisível.  Deve ser evitada se possível, pois ao ser arrastado o veículo pode virar ou ficar preso, tornando fácil um acidente fatal. Em enchentes é comum a travessia de pontes inundadas, mas se houver correnteza mesmo que fraca o risco é altíssimo. Muita gente já perdeu a vida nessas situações;

13 – Sempre que o veículo for submetido à travessias ou alagamentos uma revisão deve ser feita de forma criteriosa. No caso de contaminação por água salobra ou salgada, isso deve ocorrer sem demora. Desligue sempre a bateria quando for mexer na fiação para lavagem, limpeza e posterior proteção;

14 – Caso constate a contaminação do óleo da transmissão ou diferenciais, drene, troque e veja se não houve emulsificação, caso em que deve haver a desmontagem;

15 – Se o motor engolir água e parar de funcionar, não insista em tentar fazê-lo funcionar. Em motores ciclo Otto as velas devem ser retiradas e a água pode ser sugada ou expulsa dos cilindros. No caso de motores diesel com bicos mecânicos, estes podem ser retirados para o mesmo fim. Em motores modernos com sistema CRD (common rail)  e bicos eletrônicos o veículo deve ser levado a uma oficina imediatamente. Se ao movimentar o motor para a expulsão da água houver barulhos metálicos ou sentir que o motor travou, pare imediatamente e leve o carro a uma oficina.

16 – A instalação de Snorkel num veículo originalmente sem o equipamento deve ser feita com extremo critério, observando a capacidade de alimentação de ar do mesmo, evitando restringir o fluxo de ar para o motor, bem como os cuidados necessários com a vedação e fixação do conjunto. Mas o mais importante: o só fato do veículo passar a ter uma tomada de ar elevada não isenta o mesmo de sofrer todos os outros efeitos indesejáveis da água nos demais sistemas;   

Por fim, conheça seu veículo. Leia os manuais, conheça os limites, componentes e esteja sempre equipado com ferramentas básicas, kits de primeiros socorros e com as ferramentas indispensáveis à pratica do offroad como cintas, pranchas, cordas, manilhas, luvas, lanternas...e sempre pratique offroad em grupo. Se estiver sozinho, mesmo com as técnicas e equipamento corretos, a travessia de cursos d’água pode tornar-se ainda mais perigosa. 

* Fanta, ou Guilherme Nüske, é advogado por formação e mecânico amador.

Mercado

Instagram

expedicaooffroad4x4
expedicaooffroad4x4
expedicaooffroad4x4
expedicaooffroad4x4
expedicaooffroad4x4